Delete, restart
A incrível arte de não terminar roteiros.
“Sou roteirista”, ou adoraria dizer que sou. Mas pra começar precisava terminar um roteiro. Já terminei alguns, mas nunca terminei bem. Sou contra as fórmulas que os livros do Syd Field e outros receita de bolo ensinam, da estrutura em três atos, de todas as regras de “faça assim que dá certo”… às vezes o que dá certo é a história, às vezes a forma, às vezes os dois. E não é nem por isso que nunca terminei um roteiro.
Tem gente que pensa a história através de um personagem. Fundamenta quem ele é, de onde ele veio, para onde ele vai, o que ele está fazendo e por quê, e então cria o mundo em volta dele. A história sai do personagem, e não o contrário. Tem roteirista que cria o mundo primeiro, ou a situação do roteiro, e insere os personagens nisso. Tem gente, como eu, que cria as cenas. Uma atrás da outra, uma a partir da outra, e o personagem e as situações se constróem dentro delas. E alguns, em uma situação ou em outra, não sabem terminar seu roteiro. Essa sou eu.
Bloqueios criativos não são muito simples. Não é só “ih, travei”, é “ih, nada que eu pensei está bom o suficiente” ou “ih, estraguei”. As ideias até aparecem, só não são a ideia que você precisa. Outro dia o GusInTheBus (nem tentem, ele ainda não começou o blog dele) me perguntou como eu começava a escrever um roteiro. Queria perguntar pra alguém como se termina um. Como é que se acha a cena perfeita?
Tem uma coisa engraçada em roteiros de filmes. Você tem que pensar objetivamente. Por mais que o roteirista queira deixar claro o que significa aquilo que o personagem está fazendo, ou o que está acontecendo, não adianta escrever que “ele se sentiu só como nunca”. Isso é dos literatos – e dos diretores. O roteiro é um exercício de subjetividade objetiva, passar o que você quer passar sem precisar ser explícito, marcar pela simplicidade de gestos ou descrições breves todo o conflito que cabe num personagem. Aí sou adepta de rubricas, marcas de ação dentro dos diálogos que acentuam gestos e atitudes cruciais, mas nem todo mundo precisa ser. Ser objetivo também é uma habilidade particular de cada roteirista, e cada um tem o seu jeito.
E se terminar um roteiro também é uma habilidade particular de cada um, pode até ser que não exista cena perfeita… só a prática pode responder, e por enquanto eu continuo perguntando.
Alimentando o perigo
Toda mulher tem TPM, e tem gente que pensa nelas.
Matadores de Vampiras Lésbicas, Bastardos Inglórios, Garota Infernal. Essas pérolas de sangue falso são o alívio dramático que uma boa neurótica precisa. Mais do que sanar o desejo sanguinário de uma TPM feroz, os quase splatter films colocam em linguagem de cinema os desejos ocultos e suprimidos do inconsciente coletivo. Os menos, hum, perturbados, concordam que vibração e gritinhos de apoio na sala de cinema quando o sangue de karo [aquela coisa nojenta que não é mel nem açúcar] jorra na tela não é lá muito saudável, mas – até pra partir em defesa própria – não tem nada de mais em observar com olhos animados a destruição de bonecos de cena.

Jenny's on fire.
O cinema tem o poder avassalador da imersão. Como no teatro onde a platéia senta-se na penumbra e o foco de luz fica nos atores, na sala de cinema o escuro volta a atenção para a projeção adiante, e a partir de então a realidade é aquela que se projeta na tela, e não o mundo de pequenos acontecimentos à sua volta. A identificação, visto esse cenário imersivo, é quase consequência. A fixação causada pela imagem em movimento perdeu o glamour com o passar das décadas. Hoje o cinema é centenário e o poder de criar imagens em movimento em vídeo está ao alcance de [quase] qualquer um. O condicionamento para o público das gerações mais recentes, portanto, vem de berço, mas a fascinação continua pelo envolvimento emocional com a história. Trens correndo em direção à tela podiam ser muito interessantes nos cafés parisienses do século retrasado, mas hoje são a imagem do corriqueiro.
Cabe então recorrer ao usual que só existe no cinema [o tal do "só acontece nos filmes"]. O gore é uma realidade perturbadora que ninguém gostaria de admitir que existe, mas que vira entretenimento nos filmes pelo conforto da associação condicionada. Por saber – ou supor – que tudo que acontece no cinema é mentira, o espectador conforta-se em compreender que “não, eu não vou ser retalhado por um maníaco com uma serra elétrica num casarão abandonado, isso é coisa de filme.” [embora os pobres namorados das mais estouradas devessem considerar essa opção no mínimo uma semana por mês].
Pelo menos no caso dos filmes de terror. Como o ser humano é mais otimista do que gostaria de admitir [por questões evolutivas, algo a ver com a sobrevivência daqueles que acreditam na sobrevivência], as comédias românticas são a ilusão mais doce e o sonho mais querido quando a TPM pende para a depressão melosa. Mulheres não costumam se emocionar com tudo, mas hormônios podem ser enganadores. Para fases como essa, talvez “Garota Infernal” [Jennifer's Body, dir. Kary Kusama, 2009] possa ser um pouquinho demais para os nervos femininos à flor da pele – e podemos acabar trocando os gritinhos de aprovação pelo choro incessante… acontece.
Tarantino é um bastardo
Brega, clichê, patriota… nada como uma obra-prima que se aproveita do óbvio.
Como você gostaria que a segunda guerra tivesse acabado? Talvez seja essa a pergunta que Quentin Tarantino tenha feito pro próprio espelho. E a resposta foi megalomaníaca e sem sentido, como sempre. O problema – ou a solução, já que não gostar desse cara é muito difícil – é que, não contente em saber a resposta, ele foi lá e fez. Como Hitler já não é mainstream há muito tempo Tarantino faz do jeito dele, com Brad Pitt no elenco e tudo o mais. E que palavra eu posso usar agora pra dizer que… ele acertou de novo?

"Gratzie"
Aproveitador. Tá bom, meio pesada. Segunda guerra mundial é um terreno meio perigoso [sem trocadilhos] afinal foi o evento mais cinematográfico do século XX tirando o Titanic e já ganhou várias versões e visões. Como não dava pra fugir dos clichês, especialmente sob a ótica tarantina da coisa, ele abraçou. É importante ser brega, falta ensinarem isso nas escolas de cinema. Ser brega não é mal, ainda mais se for medido o suficiente pra virar estilo. E aí digamos que existe uma marca autoral do diretor, a essência de toda a sua cinematografia que é o kitsch, o absurdo que beira o filme B mas não chega lá exatamente.
Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, dir. Quentin Tarantino, 2009) é, de certa forma, um poço profundo de obviedades. É claro que os EUA ficariam mais do que contentes em assumir a responsabilidade pela dizimação total do nazismo, representado essencialmente por Adolf Hitler e os altos comandantes do Terceiro Reich. É óbvio que Hitler era o grande antagonista. É sabido que mortos de guerra são mais números do que nomes. Nesse terreno fértil onde sangue jorrando não é polêmica e violência é comportamento comum, Tarantino se sente em casa. Não fosse um filme dele, talvez ninguém gostasse. Faz muito mais sentido quando é na mão do homem que orquestrou a chacina d’A Noiva.
A catarse coletiva do final quase inacreditável [prometo que não dou spoilers] é mero sintoma. O desejo coletivo é consequência de como a História foi contada. E se aqui a mesma História vira uma história, não é o espectador que vai erguer a mão em revolta. Quando se trata de Tarantino, queremos sangue, suor e guerra.
Apocalipse? Paul Bettany!
A guerra dos anjos vem aí…
Quando o mundo religioso está em apuros surge o sombrio e branquelo guerreiro que povoa os sonhos e os pesadelos do público de cinema. Paul Bettany já provou por padres lutando contra a peste e por monges assassinos que não é pouca coisa. Inclinado a papéis de cunho religioso – será pelo físico peculiar? – , chega desta vez para encarnar um badass arcanjo Miguel no filme-que-precisamos-ver “Legião” [Legion, dir. Scott Stewart, estréia prevista para março de 2010 o Brasil]. A sinopse do filme já é um prato cheio: depois que Deus perde a fé pela humanidade e decide enviar seus anjos pra botáprafudê, um grupo de pessoas isolado num restaurante-trailer é protegido do apocalipse que acontece lá fora pelo sempre benevolente arcanjo Miguel, que corre em socorro do grupo e da garçonete do restaurante, grávida do novo Messias [uou!].

Legion, na bíblia, é um demônio. E no filme?
E o cara é o anjo perfeito. O trailer do filme apareceu na Comic-Con desse ano e chamou alguma atenção – são anjos brigando, por deus! Hell on Earth onde não existem mocinhos e bandidos – e um quê de Constantine. Aparentemente é o bem lutando contra o bem, em suas ramificações mais macabras. Os historiadores costumam dizer que, sempre que a humanidade se encontra à beira de grandes guerras ou tempos sombrios [seja lá o que isso quer dizer], as grandes tragédias, monstros e as várias versões do Apocalipse voltam a aparecer nas artes. A coisa deve estar bem feia, porque a safra de filmes-catástrofe só faz crescer dos idos de 2000 para cá. Mas se a casa vai cair mesmo, que caia com estilo. E com o Bettany no papel principal, claro.
É do imoral que a gente gosta
Se Grissom já era controverso, o que dizer então de Dexter?

Dexter vestido para matar
Um matador adorável. Dexter Morgan é um modelo louvável de anti-herói. Em vistas gerais, um personagem aparentemente simples; atormentado por ter presenciado o assassinato da mãe aos três anos de idade e ter passado sabe-se lá quantos dias mergulhado numa poça de sangue, o garoto criado por um policial exemplar aprende com ele a controlar seus instintos assassinos nascidos junto com a morte da mãe e a usá-los para o bem. Dexter sente o desejo assassino, mata algum criminoso da ralé, se livra do corpo, das pistas, e da culpa. Fora isso, é o perfeito homem sem defeitos, desde a eficiência no trabalho até a atenção paternal aos filhos da namorada.
Toda essa simplicidade é o que torna o personagem tão… complexo. Como não amar Dexter, um bloco imutável de emoções superficiais e impulsos secos? O homem perfeito que não sente nada de verdade, mas não deixa de ser excepcional. Seu único deslize é ser um assassino serial – e será que gostaríamos tanto dele se ele fosse apenas perfeito e superficial? O toque bestial é a pérola na superfície rasa do comportamento de Dexter. Lutamos para vê-lo avançar, experimentar novas sensações, aprender a ter sentimentos mais humanos e deixar de lado o vício de matar, mas ele não seria o mesmo sem isso. Quando Dexter deixar de matar, como é que vamos saber se ele não vai, definitivamente, perder a graça?
Fica a dúvida.
[Esse é um scratch|post sobre Dexter, o personagem. A intenção era mesmo ser superficial e olhar o personagem, apenas. Quer mais? A série está indo para a quarta temporada nos EUA. Por aqui, as temporadas anteriores estão no ar no canal de TV a cabo FX.]
A roça vigiada

Mas como assim "Staying Alive" na abertura?
A Fazenda tem todos os ingredientes pra ser um estouro – e por quê não é, então?
A novidade nos ’shows de realidade’ da TV brasileira tem nome. A Fazenda estreou em 31 de maio na Record, com investimento pesado da emissora. O reality mistura Big Brother com Simple Life, num formato que – pasmem! – não pertence à veterana Endemol. Comecemos que A Fazenda, para os padrões da própria Rede Record, é um sucesso considerável de audiência. Nas primeiras semanas de exibição o programa tem batido o líder Fantástico aos domingos, nos episódios de eliminação do reality show do canal 7, por até 10 pontos de vantagem. Não é pouco para uma emissora que até meia dúzia de anos atrás era a terceira colocada no ranking de audiência nacional. A ascensão quase forçada por gastos inimagináveis – essa semana, a Record anunciou a compra do apresentador Gugu Liberato do SBT pela bagatela de 3 milhões de reais por mês – tem levado a rede do Bispo Edir Macedo a explorar campos antes dominados pela Globo há tempos, como a dramaturgia (e os Mutantes da Record) e agora, numa investida mais pesada, o reality show.
Que Big Brother Brasil é sinônimo de lucro e liderança para a Rede Globo, não há mistério. O trabalho de Boninho, já caminhando para a décima edição, firmou de vez o gênero na televisão do Brasil. A Endemol, holandesa criadora da atração – e de vários outros shows do tipo – nada em dinheiro e vangloria-se da franquia milionária criada no rastro do programa inspirado em 1984 de George Orwell. Uma sacada e tanto focada na psicologia voyeurista que Freud já explicava no início do século XX.
Então vem A Fazenda. Um viés engraçado do que A Casa dos Artistas tinha de mais curioso: a apreciação [sic] da vida comum de celebridades cultuadas [sic]. Difícil não comparar com o veterano BBB, mas quase injusto; a estrutura física da Record, apesar de muito mais ampla (pelas minhas contas não-oficiais, o terreno da fazenda em Itu deve ser 2 ou 3 vezes maior que a casa do Big Brother no Projac) carece de técnica. Faltam câmeras para pegar todos os momentos, a edição se arrasta, peca no excesso, e a equipe tem menos intimidade com o processo todo-especial-fresco do reality.

Theo Becker e Dado Dolabella brigam... de novo.
Mas tudo isso passa, já que a melhora é progressiva e visível a cada semana no programa. O que fica difícil de passar é ver a premissa do formato descer pelo ralo, por mais que a produção do programa se esforce notavelmente para não deixar a essência morrer. Afinal, A Fazenda é um reality de celebridades na roça, não? Faltam as celebridades, e um pouco do “gramú” da roça. Apesar de absolutamente tudo referir-se à fazenda (inclusive a genial “Porteira de Voz” do programa), e da convivência com os bichinhos, vaquinhas, ovelhinhas e porquinhos ser bastante explorada, a vitória é dos egos. Egos de celebridades que muita gente nunca ouviu falar – e que se conhecem ou já trabalharam juntos na própria Record, por coincidência – que passam o dia inteiro brigando pelos motivos mais bobos. Então, não, não é justo comparar A Fazenda ao BBB. Mas nesse ponto, não é que eles são iguais mesmo?
De qualquer forma, considero o programa a melhor coisa ruim da televisão por ora. Afinal, ele realmente bate o Fantástico, e muita gente acabou descobrindo quem diabos é Theo Becker. Já é um mérito e tanto se esforçar para fazer direito, ou pelo menos direito o suficiente pra cativar alguma audiência e grudar telespectadores à telinha, só esperando o próximo barraco.
O moralismo imoral
Como C.S.I. e outras séries caveira provam que o crime não compensa
Aposto que você já viu alguma série policial, qualquer uma. Desde os seriados de duplas policiais boa pinta e estilosas dos anos 70 até Law & Order em alguma das suas muitas veias de franquia, nos anos 90 . Das duplas que atiravam para todos os lados até o drama de investigação policial bem-representado por Special Victims Unit (SVU) – uma das mais famosas das séries Law & Order -, o teor ‘policial’ do gênero mudou um bocado. Foi no final de 2000 que o Midas das produções de ação Jerry Bruckheimer resolveu encostar seu dedo de ouro no que viria a ser a franquia policial mais bem sucedida do novo século.
O imbatível Gil Grissom
C.S.I. – Crime Scene Investigation foi um marco no gênero, como não podia deixar de ser. Já em meados dos anos 90 as produções policiais para TV despontavam para a abordagem da figura do investigador como uma pessoa sensível, com conflitos e reações a todos os problemas com os quais convive. E não só entre policiais como também entre médicos [no exemplo de temporadas infinitas que é E.R.] e outras profissões que até 20 anos atrás eram vistas pela televisão como frias e mecânicas – salvo, é claro, exceções. Gil Grissom é o ápice do profissional de cérebro grande e coração de manteiga. Cientista, especialista em insetos, multi-inteligente e irônico; esse era o chefe da sessão de investigação criminal de Las Vegas, a cidade onde a noite é dia e o crime passa impune – ou passava, antes de Grissom. Com seus comentários sarcásticos bem-colocados e os insights incríveis, ele lidera uma equipe de policiais humana e errônea, como deve ser. Warrick é viciado em jogos. Nick costuma envolver-se demais com os casos e de menos com as vítimas. Sara tem um caso com Grissom, além de uma lista considerável de problemas pessoais. Catherine foi dançarina na juventude, e por aí vai.
Mas não é no caráter emocional dos personagens – ou não somente nele – que C.S.I. atraiu a atenção da audiência. A rotina da equipe também é exposta, nua e crua, com o sarcasmo de sempre – leia-se cadáveres expostos em autópsias cercadas de piadinhas do legista, as mortes mais estranhas, efeitos especiais explicando passo-a-passo como um cigarro aceso pode matar um indivíduo [por exemplo], alegria profissional em encontrar as evidências mais ínfimas nas situações mais absurdas. Lembro que um dos episódios mais marcantes que já assisti nesse sentido foi o caso do homem líquido, encontrado aprodecendo numa mala no deserto de Vegas. A ‘exumação’ é uma cena nojenta e fantástica [não lembro a temporada, mas se descobrir dou um update por aqui].
Mas por que fantástica? Grissom zomba da morte, e a respeita. Entende suas vítimas e as ouve, da sua própria maneira, apontando a culpa do criminoso. Insistindo que a morte é natural, mas ao mesmo tempo que não é. O crime não compensa? Então por quê parece tão legal aos olhos do espectador? Duas palavras: curiosidade e sim, sadismo. Das séries mais assistidas na última década nos EUA, quase todas lidam com o voyeurismo que beira o sádico – desde médicos humanos e rabugentos até demais operando seus pacientes com fervor, pessoas passando por todo tipo de dificuldade e sendo caçadas por estranhos numa ilha ainda mais estranha, séries criminais carniceiras e reality shows – os senhores supremos da espiada na vida do outro. A televisão virou o que nos equivale ao espelho de Alice, um relance de outra dimensão, outras vidas e vivências. E do outro lado do espelho buscamos ver o que não queremos ver deste – afinal, é tudo ficção mesmo né?
Slumdog Millionaire e a cultura do repeat
Salim o caralho, meu nome é Zé Pequeno, porra!
Uma pequena pausa nos posts de assuntos genéricos para partir a uma análise de filme – coisa que eu não faço faz tempo! “Quem Quer Ser Um Milionário” (Slumdog Millionaire, 2008, dir. Danny Boyle), o papa-oscars da cerimônia de 22 de fevereiro último, é uma caixinha de surpresas, boas e ruins. No meio da exuberância de uma Índia/Bollywood recém-descoberta pelos olhos desatentos da Academy, uma fábula digna de Sessão da Tarde se desenrola no submundo das favelas de Mumbai.
Explorando ao máximo o lado BAD da sociedade de castas indiana – e, pra nós aqui abaixo do Equador, fazendo um belíssimo contraponto ao sucesso/cópia de O Clone das 20h na Globo, Caminho das Índias – Slumdog pisa em terreno fértil, mas não incomum. Pra quem não conhece a famigerada jornada do herói [mais em "A Jornada do Escritor", livro de Joseph Campbell - ele mesmo!], resume-se no seguinte: herói, conflito, vilão, enfrentamento e final feliz. É o caminho da maioria dos filmes que cativam a audiência, mas isso não quer dizer que o roteiro não seja bom. O filme de Danny Boyle trabalha com a jornada quase em sua perfeição, com um pano de fundo extremamente instigante e novo para o mundo ocidental que é a sofrida vida dos dalits e das castas mais baixas na cultura indiana. Jamal é um menino criado nas slums [favelas] de Mumbai com uma incrível história de vida que passa por extorsão, violência, trabalho infantil e separações dramáticas. Um prato cheio para a catarse possibilitada pela participação do já crescido Jamal num programa local parecido com o nosso Show do Milhão.

Quem quer ser um milionário?
Sem intenção de SPOILER, mas não tendo outra alternativa, preciso comentar que a obviedade do final tira um pouco do charme de toda a situação narrativa criada em torno da pergunta milionária. Slumdog tinha tudo para surpreender do começo ao fim – mas abre mão desse recurso pela satisfação da sua plateia. Impossível assistir ao filme e não compará-lo com “Cidade de Deus” (2002, dir. Fernando Meirelles). As favelas da Índia não são iguais às do Rio de Janeiro, fato, mas a essência permanece a mesma. Violência e, ainda assim, colorido. Boyle parece ter percebido a semelhança [arrisco dizer que até inconscientemente] e muito de um filme está presente em outro, inevitavelmente. Na Índia, no Brasil, miséria é miséria em qualquer canto [alô, Titãs?].
Slumdog leva muitos pontos por dar a Jamal, sim, um objetivo, que no entanto não é o dinheiro – é Latika [interpretada pela linda Freida Pinto]. É uma fábula de amor, regada de elementos pesados, claro que sim, mas que não deixa de ser leve e deslumbrante quando necessário. Fórmulas são inevitáveis e os mais puritanos podem depreciar Slumdog por seguir algumas delas, não os culpo. Até eu me decepciono um pouquinho por saber que o filme não tem tudo de original. Por outro lado, ainda é um bom entretenimento para deixar Bahuan e a cenografia da Rede Globo com cara de artificialismo forçado.
Nos próximos capítulos…
Rádio, ficção vs. realidade, ideias sonoras [o que é isso?] e conteúdo fresquinho.
Aqui, no Ideias Estranhas.
…
[corta! ficou boa essa, vamos rodar mais uma por segurança?]
Um post de opinião
Pequeno tratado sobre música ruim [e o que é música boa].
O que é de gosto, o que é preferência, tudo que não é unanimidade sempre se isenta de discussão… ou não. Vá lá, o povo tem alguma tendência geral, quase instintiva, de convencer o outro dos seus motivos para gostar/ser adepto/seguir alguma coisa. Então, evitar os assuntos indiscutíveis [política, religião e gosto sexual não se discutem?] fica complicado, dependendo do contexto [odeio generalizar, mas fica bem mais fácil de visualizar as coisas. Portanto, perdoem minha tendência "todo mundo faz isso", e por favor protestem e levantem a mão se forem exceção].
Música é outro desses campos perigosos pra gerar uma discussão. Mas não posso negar que ultimamente tenho ouvido comentários suficientes pra remoer uma questão em particular; o que pode ser classificado como “música ruim” e “música boa”? Particularmente, classifico música como “audível” ou “não-audível”. Quando alguma coisa me agrada numa canção/artista/estilo específicos ela é audível. E portanto passível de classificação como música boa… mesmo que, tecnicamente, não seja boa. Acho que não deu pra entender, so rewind. Seguindo o senso comum [nota: não acho que senso comum exista de verdade, mas tá, voltando...], bom é sinônimo de qualidade, algo agradável – no caso, aos ouvidos -, de bom gosto. Já ruim é o exato oposto [antônimos, anyone?], algo sem qualidade, que causa desagrado.
Então o correto seria perguntar o que define qualidade na música. É preconceito que move hordas a repugnar o tecnobrega e venerar o indie rock [por exemplo]? Prefiro acreditar que o senso de qualidade dessas pessoas é que define que um seja melhor do que o outro. Contando fatores culturais [e pode colocar sociais nessa pasta aí], principal meio de acesso a músicas novas e influências próximas, todos estamos ditados a considerar bom o que chega aos nossos ouvidos mais facilmente, ou com melhores recomendações. A exploração também é natural – mas você partiu de algum ponto pra chegar no Devendra Banhart, não? Mesmo que você conheça N bandas ou estilos desconhecidos, que se interesse por música que não é mainstream e que seus amigos nunca ouviram, sempre partimos de algum ponto comum [comum, aqui, no sentido de "conhecido"]. Algum audível – se audível = estilo musical, canção, artista – te puxa para outro, e para outros, e de repente você se interessa por coisas bem menos agradáveis aos ouvidos de quem gostava daquele primeiro lá no começo da frase.
Música é um processo, e não só enquanto produzida ou ouvida [tenho razões para defender que a audição é um processo - e alguns teóricos malucos também têm, eles que me ensinaram!], mas também enquanto objeto de apreciação. É possível se manter fiel a um estilo por toda a vida, ou a um artista, mas não é possível considerar seus ouvidos fiéis à eterna repetição. São aqueles fatores que nos fazem considerar a qualidade da música que também nos mantém mais propensos a um estilo ou outro. No entanto, você ainda pode ouvir, e pode experimentar, se desconsiderar o que firmou como seu “gosto”. E essa é a parte que acho mais divertida, na verdade, quando descobrir o novo vira passatempo. E, em termos musicais, um passatempo inebriante.
Ainda assim perguntei a twittos amigos: o que é música ruim? Fato que quem tem amor por música tem uma noção diferente sobre gosto – não, todas as outras pessoas na Terra não são burras ou ignorantes só porque não consideram la musique parte essencial da sua vida. Tá certo que é difícil não concordar com a opinião quase geral e genérica [música ruim é música chata/irritante/algum sinônimo apropriado], mas o gosto, esse sim, é indiscutível. Podemos querer saber de onde ele vem, mas não podemos discutir. Enfim, você ouve o que você quer. Eu poderia passar mais alguns parágrafos tentando convencê-los de que é bom experimentar, não se ater a uma coisa só, mas olha… essa é a minha opinião. E é bem melhor quando cada um tem a sua – já que sem discussões nunca haverá argumento. Certo?